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O evangelho entre os muçulmanos

A perseguição religiosa

Embora a conversão não seja proibida por lei, cristãos convertidos do islamismo ou budismo são os que mais enfrentam perseguição. Segundo a organização internacional Portas Abertas, Bangladesh ocupa a 35ª posição entre os 50 países onde seguir a Cristo pode custar a vida. Ameaças, violência e morte acontecem principalmente nos vilarejos. Inclusive, nesses lugares as comunidades são divididas por religião para se protegerem. Já houve casos de pastores que foram mortos e o ISIS se responsabilizou por alguns desses assassinatos.

Foto: Landerson Santana

Missionário fala sobre decisão da Suprema Corte de Bangladesh de manter o Islã como religião oficial do país, o fato ganhou repercusão internacional.

Apresentada pela primeira vez há 28 anos, a petição de um grupo de ativistas em Bangladesh para que o islamismo deixasse de ser a religião oficial do Estado foi a julgamento na Suprema Corte do país na segunda-feira, 28 de março. Porém, a deliberação sobre o pedido não durou mais do que dois minutos e foi rejeitada pelos juízes. Não houve espaço para debate nem defesa. Em entrevista ao jornal The New York Times, o advogado que entrou com a petição afirmou que nunca viu nada parecido. “Pelo menos uma audiência adequada deveria ter ocorrido. Tínhamos nos preparado tanto!”, ele afirmou.

Bangladesh já foi uma nação laica. Porém, em 1988 o país de maioria muçulmana adotou o islamismo como religião oficial. Ao mesmo tempo, sua Constituição mantém princípios em favor da separação entre o poder político e a religião. Essa contradição tem sido questionada por grupos que tentam separar igreja e Estado. Desde então, alguns desses ativistas foram perseguidos e mortos.

A perseguição religiosa também é uma realidade enfrentada pela minoria cristã que vive no país. De acordo com o relatório da organização internacional Portas Abertas, divulgado no início deste ano (clique aqui e veja o infográfico), Bangladesh é o 35º na lista dos 50 países onde seguir a Cristo pode custar a vida

O brasileiro Landerson Santana vive na região desde fevereiro de 2013. Ele conta que, com frequência, cristãos são vítimas de preconceito e ameaças. Alguns chegam a ser mortos por causa de sua fé. Embora a mudança de crença não seja proibida por lei, aqueles que abandonam principalmente o islamismo e o budismo, as duas religiões predominantes, se tornam alvo de represálias.

Qual foi a reação dos cristãos e, por outro lado, dos islâmicos depois que a Suprema Corte de Bangladesh rejeitou o pedido para tornar o Estado laico?

Os defensores do movimento em favor do estado laico lamentaram a decisão. Em entrevista que repercutiu na imprensa internacional, Subrata Chowdhury, advogado que representou o grupo, afirmou: “É um dia triste para as minorias de Bangladesh”. Porém, ouvi vários cristãos comentarem que não esperavam essa mudança. A possibilidade de um estado laico em Bangladesh é remota, já que quase 90% da população segue o islamismo. De outro lado, a decisão da Suprema Corte de rejeitar o pedido foi comemorada pelos líderes islâmicos. Segundo noticiou a Agência France-Presse, o principal partido islamita do país considerou o fato uma “vitória para 160 milhões de pessoas”.

Quem está liderando esse movimento em favor da laicidade do Estado?

À frente desse movimento estão advogados e ativistas. Eles argumentam que o artigo 2º da Constituição do país, que reconhece o islamismo como a “religião da República”, contradiz o artigo 12, que declara ser o secularismo um princípio do Estado. No ano passado alguns integrantes do movimento foram mortos. Eles vinham sofrendo ameaças por publicarem na internet mensagens a favor do secularismo e por defender a separação do poder político do religioso. O grupo terrorista Al-Qaeda, da Índia, se responsabilizou por uma das mortes. Os extremistas muçulmanos reivindicam o estado com base na sharia (direito islâmico).

Bangladesh já foi um país laico. Quando o islã se tornou a religião oficial?

Isso aconteceu em 1988. Alguns entendem que a atitude do general Hussain Muhammad Ershad de decretar o islamismo como a religião do Estado foi uma tentativa de consolidar o poder. No entanto, em 2010, por influência da primeira-ministra Sheikh Hasina, a Suprema Corte de Bangladesh alterou a Constituição. O país passou a ser um Estado oficialmente secular, mas, contraditoriamente, a religião do Estado continua sendo o islamismo. Ou seja, na prática, não houve mudança significativa, uma vez que a carta magna do país continuou autorizando a manutenção do Islã como religião oficial do Estado. Desse modo, o país continua sendo regido por um sistema misto de leis governamentais e religiosas.

Para compreendermos melhor a situação atual de Bangladesh, é importante voltarmos no tempo a fim de relembrarmos a história do país. Antes de 1971, a nação era chamada de Paquistão Oriental, fazendo parte do atual Paquistão. Por sua vez, o atual território paquistanês já fez parte do mapa da Índia quando a região ainda era colônia da Inglaterra. Em 1946, uma das extremidades do território pertencente à Índia foi destinada a muçulmanos. Isso motivou um grande fluxo migratório de muçulmanos para o Paquistão Ocidental e Oriental e explica porque o islamismo é tão forte em Bangladesh. Em 1971, após uma guerra civil, o país proclamou sua independência, deixando de ser chamado de Paquistão Oriental. No ano seguinte, foi criada a Constituição do país, que se declarou um estado laico, apesar de ter uma população majoritariamente muçulmana.

Como estão distribuídas as principais religiões existentes no país?

Segundo dados divulgados recentemente, as principais religiões do país estão distribuídas da seguinte forma: o islamismo (de maioria sunita), representa 86,6% da população; o hinduísmo, 12,1%; o budismo, 0,6%; o cristianismo 0,4%; e outras religiões, 0,3%.

Que tipo de dificuldade os cristãos hoje enfrentam em Bangladesh para praticar e compartilhar sua fé?

Embora a conversão não seja proibida por lei, cristãos convertidos do islamismo ou budismo são os que mais enfrentam perseguição. Segundo a organização internacional Portas Abertas, Bangladesh ocupa a 35ª posição entre os 50 países onde seguir a Cristo pode custar a vida. Ameaças, violência e morte acontecem principalmente nos vilarejos. Inclusive, nesses lugares as comunidades são divididas por religião para se protegerem. Já houve casos de pastores que foram mortos e o ISIS se responsabilizou por alguns desses assassinatos.

Porém as perseguições mais comuns se referem ao preconceito e à dificuldade nos negócios. Alguns cristãos precisaram desistir de suas lojas ou empresas devido à pressão da maioria muçulmana. Assim que os vizinhos percebem que o negócio está prosperando, a perseguição começa.

Além disso, pessoas que se convertem ao cristianismo são frequentemente excluídas de suas famílias e seus filhos encontram dificuldades para se matricular nas escolas. Quando conseguem vaga, são alvo do preconceito de colegas de classe e, inclusive, dos professores. Em algumas escolas cristãs, os pais que seguem o islamismo chegam a se organizar e fechar a escola, apenas porque ela está indo bem e pertence a um grupo cristão. É difícil para os cristãos obter licença do governo para algum tipo de negócio. Os que decidem seguir Jesus passam a lidar com uma série de burocracias que dificultam a vida no país.

Diante desse cenário, como é pregar o evangelho nessa região?

É um grande desafio. Não podemos pregar publicamente para quem não é cristão. A fim de minimizar os riscos de perseguição, somos aconselhados a falar individualmente com aqueles que mostram interesse em ouvir sobre Jesus. Apesar das restrições, Deus tem aberto muitas portas. Há dois anos, eu e minha esposa estamos estudando a língua local, o bengali, e isso tem ampliado as possibilidades de ajudar a igreja. Inclusive, temos um pequeno grupo em nossa casa, que semanalmente reúne seis adventistas, uma católica, uma presbiteriana e um muçulmano. Completamos um ano e meio de estudo da Bíblia com esse grupo e, no momento, estamos estudando as profecias de Daniel e Apocalipse.

Quais são os principais desafios e projetos da igreja no país?

São muitos. Por exemplo, há mais de dez anos a igreja não dispõe de recursos para contratar novos pastores. Temos também falta de materiais para evangelismo via internet e rádio, uma vez que produzimos um programa diário de trinta minutos que é veiculado online e retransmitido na ilha de Guam. Existe ainda uma grande necessidade de músicos que gerem conteúdo em áudio e vídeo, bem como especialistas em pregação via internet. Além disso, não existe material na língua bengali para Pequenos Grupos, um ministério que tem grande potencial para o crescimento da igreja.

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Última atualização em 16 de outubro de 2017 por Márcio Tonetti.

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