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Como acolher autistas e suas famílias no ambiente religioso?

em 2008

Com o crescente número de diagnósticos, preparar a igreja local para tornar seu ambiente mais acolhedor para esse público torna-se uma tarefa urgente. Na entrevista a seguir, a psicóloga Rosângela Silva traz algumas informações que podem ajudar na compreensão do assunto. Ela é neuropsicóloga, pedagoga, especialista em Educação Especial e mestranda em Neuropsicologia.

Segundo especialista, tornar a igreja um ambiente acolhedor para pessoas autistas é tarefa de todos os fiéis (Imagem: Shutterstock)

 

Por Jordana Perdoncini

O dia 2 de abril foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2008, como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. O Transtorno do Espectro Autista, conhecido como TEA, afeta as habilidades de interação social, de comunicação, e gera repetição de comportamentos padronizados. Embora faltem dados precisos no Brasil, estima-se que, no país, mais de 2 milhões de brasileiros tenham o transtorno. O cálculo se baseia em estudos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que é a agência pública de saúde dos Estados Unidos.

Psicóloga dá dicas e ressalta a importância de promover informações sobre o assunto dentro da comunidade cristã.

Você poderia explicar o que é o autismo?

Transtorno do Neurodesenvolvimento, conhecido por Transtorno do Espectro Autista (TEA). Uma condição, não uma doença. Há grande diferença entre transtorno e doença. Doença exige cura, já o transtorno é uma condição que o indivíduo irá conviver por toda vida, podendo ter remissão dos sintomas. Vale ressaltar que é um transtorno do desenvolvimento que tanto fascina quanto frustra a comunidade científica e clínica. Embora extensas pesquisas tenham tentado isolar a base neuropsicológica deste transtorno complexo, sua causa ainda é desconhecida. Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), os principais transtornos poderão ser observados em níveis 1, 2 e 3. Podem ser observados déficits na comunicação não verbal e verbal, falta de reciprocidade social, dificuldade em manter relacionamentos apropriados para o estágio de desenvolvimento, padrões restritos e repetitivos, comportamentos motores, mais conhecidos por estereotipias, aderência à rotina, distúrbios da linguagem, interesses fixos e intensos. Importante lembrar que os sintomas sempre devem estar presentes no início da infância, porém podem não se manifestar até que o indivíduo se desenvolva diante das demandas sociais que exigem suas capacidades de desenvolvimento.

Há diferentes graus de autismo. Poderia explicar cada um?

Sim, chamados níveis de suporte 1, 2 e 3. Quando falamos sobre níveis de suporte, estamos nos referindo ao grau de suporte que a pessoa necessita. Por exemplo: a criança ou adulto consegue fazer suas tarefas sozinho, sem o apoio de alguém? Essa é uma temática bastante discutida no meio neurotípico. Há muita falta de informação sobre o assunto. Um exemplo disso é pensar que as pessoas só precisam de suporte devido ao seu grau. Os níveis do TEA são os seguintes:

Nível 1 de suporte: Dificuldade em iniciar interações sociais, relacionamentos sociais, dificuldades em iniciar e manter uma conversa. (Exige apoio).

Nível 2 de suporte: Graves déficits na comunicação social verbal e não verbal. Mesmo estando acompanhado, mantém respostas reduzidas em locais de interação social, diminuindo o contato com as pessoas. (Exige apoio substancial).

 

 

Qual a importância do preparo da igreja para receber essas famílias?

Quando nos permitimos conviver com o ser humano, somos mais assertivos ao servir o próximo. É comum que crianças atípicas sofram preconceito dentro da própria igreja, devido ao comportamento, que na maioria das vezes é involuntário da própria criança e do adulto. Levar informação é fundamental, e isso pode ser feito por meio de palestras e treinamentos. Acredito que a melhor forma de se preparar é visitar a família para poder realizar esse acolhimento, evitando julgamentos.

Quem são os líderes que precisam ser treinados para atender esse público?

Todos. Quando compreendermos que a igreja faz parte de um todo, independente de cargos, vamos acolher melhor as pessoas. Claro que os líderes de recepção, Ministério da Criança e Adolescente, Aventureiros e Desbravadores têm uma responsabilidade maior em aprimorar os conhecimentos.

De que forma a igreja pode promover o acolhimento das crianças autistas na Escola Sabatina?

Dando espaço para que elas também participem dos programas da igreja, oferecendo possibilidades na carta missionária, na recepção, no coral, no louvor. Elas precisam se sentir pertencentes à comunidade cristã. De forma alguma devem se sentir excluídos. A igreja precisa se acostumar com todos, independentemente de suas deficiências.

Você poderia citar algumas medidas simples que a igreja poderia adotar para tornar seu ambiente mais acolhedor para pessoas no espectro autista?

Claro. Uma delas é colocar cartazes na recepção, no banheiro e dentro da nave da igreja com informações sobre o espectro autista. Tirar um tempo para diálogo na recepção para conhecer mais a respeito da criança/adulto autista. O objetivo disso é levantar informações sobre suas dificuldades; audição, toques, barulhos. Uma opção é enviar com antecedência a programação dos cultos, para evitar possíveis desconfortos, já que algumas pessoas com TEA se desorganizam diante do novo (programação). Com esses dados, a interação será mais aceitável para o todo. Ambos estão permitindo se conhecer.

Existem muitas expressões e falas discriminatórias que podem magoar ou gerar desconforto quando direcionadas para pessoas autistas ou suas famílias. Poderia citar algumas?

“Lá vem o retardadinho”, “ele não tem cara de autista”, “ele nem parece autista”, “ele é tão inteligente, tem certeza de que é autista?”, “ele quer namorar, casar, para mim, essa coisa de autismo é safadeza”, “agora tudo é autismo, está na moda”, são algumas falas bem comuns.

Quais atitudes podem ser uma benção ao se relacionar com essas famílias?

Ótima pergunta. Em primeiro lugar, devemos ter em mente que todos nós somos diferentes e temos nossas limitações. Um segundo ponto, é entender que por trás de uma família atípica, existe cansaço, renúncia, resiliência, amor, cuidado, e acima de tudo, o desejo de ser compreendida e respeitada.

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