Dicionário Bíblico

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setenta (versão dos)

i. A origem da tradução. os Setenta, do latim septuaginta, é o nome pelo qual é conhecida a primeira e única completa tradução do A.T. A lenda da sua origem encerra-se numa carta, escrita por um certo Aristéias, que servia na corte de Filadelfo, rei do Egito (285 a 247 a.C.), a seu irmão Filocrates. Diz ela que, por sugestão do real bibliotecário de Alexandria, desejou o rei Filadelfo possuir para a sua biblioteca uma tradução das leis judaicas – e por essa razão escreveu uma carta ao sumo sacerdote Eleazar de Jerusalém, pedindo-lhe que mandasse a Alexandria seis eruditos anciãos de cada uma das doze tribos, a fim de realizarem a pretendida versão. Em seu devido tempo chegaram ao Egito esses tradutores, trazendo com eles um exemplar da lei hebraica, escrita com letras douradas, num rolo formado de peles. Foram eles, por fim, conduzidos a um edifício na ilha de Faros, e ali começaram o seu trabalho, comparando os diferentes resultados e fazendo-os concordar. Deste modo foi a tradução, com a sua transcrição, completada em setenta e dois dias, tendo sido unicamente o Pentateuco, ou a Lei, a parte vertida então para grego. Conquanto se possa julgar ter sido feita a tradução do Pentateuco pelo ano de 250 a.C., não temos provas certas a respeito da DATA do resto da versão. Tudo bem pensado, é provável que houvesse muito menos cuidado com esta última parte traduzida, e que, na realidade, fossem os vários livros traduzidos mais para instrução de pessoas particulares do que no interesse de toda a comunidade, sendo mesmo algumas partes de certos livros traduzidas por diversos. E isto explica a grande variedade de estilo, com respeito ao grego e à maneira de traduzir o hebraico. Mas os livros dos profetas, os primeiros e os últimos (vede A.T.), parece terem tido o seu termo pelo ano 132 a.C. – e a parte mais considerável dos Santos Escritos (*veja Antigo Testamento) pelo mesmo tempo. Alguns críticos, contudo, consideram a tradução mesmo destes livros feita um século mais cedo. ii. o conteúdo e a sua ontem. Quando se abre qualquer edição dos Setenta, fica-se logo impressionado pela diferença que existe entre essa versão e a nossa Bíblia, a qual, no que respeita às matérias compreendidas, se assemelha ao original hebraico. Na versão dos Setenta vamos encontrar mais um salmo, com o número de cento e cinqüenta e um, alguns capítulos acrescentados ao livro de Ester, e as narrativas de Susana, Bel e o Dragão, e também o Benedicite, o cântico dos três meninos, adicionado ao livro de Daniel. Há, além disto, acréscimos no 14 dos Reis, caps. 8 a 12. Notaremos, também, a menos muitos versículos em 1 Sm 17 e 18. Mais ainda, no original dos Setenta (embora não seja assim nos nossos manuscritos atuais) existia o livro de Jó numa forma muito mais abreviada do que a do texto hebraico. Além destas diferenças se verá que livros inteiros foram adicionados: o 1º de Esdras, a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Siraque, ou o Eclesiástico, Judite, Tobias, Baruque, a Epístola de Jeremias, e pelo menos dois livros dos Macabeus. E estes livros, com o 2º de Esdras e a oração de Manassés, e juntamente aqueles acrescentados capítulos anteriormente mencionados, são os escritos apócrifos, que vêm como apêndice em algumas edições do A.T. (*veja Apócrifos (Livros.) Mas a versão dos Setenta difere da hebraica, não somente na adição ou na omissão de passagens, e na adição de livros completos, mas também na ordem pela qual se acham dispostas as matérias. A Bíblia hebraica (*veja Antigo Testamento) está disposta, como parece, segundo o princípio da DATA da canonização das suas três grandes divisões: a Lei, os Profetas (primeiros e últimos) e os Escritos – a dos Setenta, porém, segue esta outra classificação: a Lei, a História, a Poesia, e a Profecia. Rigorosamente falando, a Vulgata, a versão latina padrão, segue esta mesma ordem também, introduzindo os apócrifos. Esta disposição, que (não falando nos apócrifos) nos parece a melhor pela força do hábito, é, por certo, a mais conveniente – mas não tem em vista a base adotada pelos compiladores da Bíblia hebraica, base, na verdade, científica. Deve dizer-se que, em alguns livros, notoriamente em Jeremias e no fim do dos Provérbios, difere a ordem dos capítulos de um modo considerável no hebreu e nos Setenta – e, também, que a numeração dos Salmos 10 a 147 é alterada pelo fato de na versão dos LXX formarem um só os Salmos 9 e 10, havendo depois a subdivisão do Salmo 147 em dois. iii. o estado presente do texto. Coisa deplorável é que esta primeira versão, e a maior de todas as do A.T., tenha chegado até nós num estado tão pouco satisfatório. Ninguém pode dizer, atualmente, quais as exatas palavras escritas pelos tradutores do Pentateuco, e muito menos o grau de exatidão das outras partes da Bíblia. Esta incerteza é mais propriamente devida a determinadas circunstâncias, que devem ser agora expostas. A versão dos Setenta tornou-se, desde logo, aquela forma da Escritura que os cristãos usavam, e naturalmente para ela apelavam nos seus esforços em convencer os judeus da verdade do Evangelho. Foi isto que levou os judeus do segundo século (d.C.) a efetuar uma nova tradução, que devia harmonizar-se mais com o sistema de interpretação favorável à sua maneira de ver, sendo até traduzidas certas passagens do A.T. num sentido anticristão. Foi isto obra de Áqüila (cerca do ano 130 d.C.), um gentio que tinha aceitado o Cristianismo, e depois se tornou judeu, tendo a sua tradução aspirações a ser extremamente literal. Um pouco mais tarde, digamos no ano 150 d.C., apareceu outra versão, obra de Theodotion, que parece ter sido cristão. Esta, embora mais próxima do hebreu do que a dos LXX, foi muito querida dos cristãos, tendo sido o livro de Daniel tão bem recebido, que é hoje o texto das vulgares edições da Versão dos Setenta, sobrevivendo a antiga tradução num manuscrito somente. Uma terceira versão foi a de Símaco (cerca do ano 190 d.C.), de quem ainda menos se sabe. Ele procurou trasladar o hebreu para um grego mais idiomático do que o dos seus antecessores. Houve, além de todas estas, outras traduções de livros em sep