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Jó, Mito ou Realidade?

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O livro de Jó é um lindo poema sobre a experiência do sofrimento humano. (...) Mas sempre surge uma pergunta a respeito desse grande homem: essa história é mesmo verdade?

O livro de Jó é um lindo poema sobre a experiência do sofrimento humano. Ele não tenta explicar a causa do sofrimento de Jó, pois ela é explicada nos dois primeiros capítulos. Sua principal função é fazer o ser humano compreender o que fazer diante do sofrimento que é inevitável, seja pela força das circunstâncias, seja pela permissão de Deus ou no contexto do grande conflito entre Cristo e Satanás. Mas sempre surge uma pergunta a respeito desse grande homem: essa história é mesmo verdade?

Embora não seja de maneira unânime, a maioria dos estudiosos respeita a tradição judaica que atribui a autoria do livro a Moisés. O Talmude Babilônico afirma que “Moisés escreveu seu próprio livro e as passagens sobre Balaão e Jó” (Baba Bathra, 14b, 15a). De fato, há muitas evidências de que o livro tenha sido escrito por Moisés. Ele passou 40 anos da sua vida em Midiã, o que explicaria a forte influência árabe no estilo literário do livro. O fato de ele ter vivido os primeiros 40 anos no Egito também explicam algumas práticas egípcias feitas no livro. Também existem muitas semelhanças, como a apresentação de Deus como Criador.

Alguns estudiosos argumentam que o livro não foi escrito por Moisés por causa da diferença com o estilo literário do Pentateuco. Mas esse argumento é frágil. Primeiramente, Jó foi escrito num contexto totalmente diferente do Pentateuco. O livro de Jó apresenta um contexto doméstico, enquanto que o Pentateuco foi escrito no contexto político, militar e eclesiástico de uma nação. Além disso, existem semelhanças textuais entre Jó e o Pentateuco. Certas palavras são presentes nas duas obras, enquanto são raras nos outros escritos bíblicos. Por exemplo, o título ‘El-Shaddai, “o Todo-Poderoso” aparece 31 vezes no livro de Jó e seis vezes no livro de Gênesis e não aparece nessa forma em outros livros do cânon.

O contexto óbvio de Jó é o da cultura do deserto da Arábia, e não no contexto israelita. Existiam outros adoradores de Deus que não eram descendentes de Abraão. Jó era um rico proprietário de fazendas de gado e plantações, e poderia ser considerado atualmente como um xeique – um ancião ou chefe soberano.

Jó não era israelita, mas, por sua fidelidade, teve um livro dedicado a sua história no cânon do Antigo Testamento. Isso mostra que esse personagem possui importância para a cultura judaica, mesmo não sendo parte do seu povo. Alguns comentaristas alegam que Jó era contemporâneo de Jetro, o sogro de Moisés durante o período em que o patriarca peregrinou no deserto de Midiã. Outros sugerem que Jó viveu antes, mas sua famosa história era lembrada pelos anciãos e sacerdotes de Deus na região da Península Arábica.

O fato é que é impossível saber exatamente quando Jó viveu, mas as características apresentadas nos primeiros capítulos apontam para Jó como sendo um fazendeiro muito rico e importante daquela região, mais provavelmente no período entre Noé e Abraão. Isso porque era comum o patriarca, que também era sacerdote da família, apresentar sacrifícios familiares a Deus. (Jó 1:5). Essa também é uma evidência para que se concorde que o livro de Jó tenha sido o primeiro livro escrito do cânon bíblico, antes mesmo do Pentateuco.

“Havia um homem na terra de Uz cujo nome era Jó” (Jó 1:1). Não se sabe exatamente a localização desta cidade. Em Lamentações 4:21, Jeremias relacionou Uz com o reino de Edom, ou, que tenha sido conquistada pelos edomitas. A LXX traduz Uz como Ausites, que se diz ser uma área na região norte do deserto da Arábia, entre a Palestina e o Rio Eufrates, próxima à Caldeia, de onde saíram os bandos de saqueadores que levaram os camelos de Jó (Jó 1:17).

O Crescente Fértil é uma faixa de terra cultivável desde o Delta do Nilo, passando pela Palestina e se estendendo pelos rios Tigre e Eufrates até o Golfo Pérsico, contornando o norte da Península Arábica. Em Jó 1:14, “os bois lavravam, e as jumentas eram apascentadas junto a eles”. Embora seja impossível dar a localização aproximada, é provável que a fazenda de Jó ficasse nos limites do Crescente Fértil com o Deserto da Arábia, porque, em Jó 1:19, o autor relata que um vento veio do deserto e derrubou a casa com todos os filhos de Jó.

A veracidade da história de Jó precisa ser aceita pela fé. Mas não devemos ter nela uma fé cega. Se cremos na Bíblia e no fato de que grande parte dela apresenta evidências arqueológicas que apontam para suas histórias serem de fato verdadeiras, podemos também aceitar a história de Jó como verdade. Embora não existam evidências históricas extrabíblicas que apontem para isso, a tradição cristã e judaica pregam que Jó realmente existiu. O principal argumento a favor da historicidade de Jó é o simples fato de sua história ser mencionada por outros autores bíblicos.

Ezequiel cita dois homens justos da antiguidade: Noé e Jó, ao lado de Daniel, seu contemporâneo (Ezequiel 14:14). Eles eram homens justos diante de um povo que estava afastado dos caminhos de Deus. Seria ilógico comparar Daniel, um personagem real, vivo naquela época a um mito, sobretudo, como um exemplo de justiça a ser seguido pelo povo de Deus.

Tiago, irmão de Jesus, cita Jó em seu livro, dizendo que ele é tido como um exemplo de paciência e perseverança em meio à tribulação (Tiago 5:11). Ele cita fatos concretos como resultado da sua firmeza em confiar nas misericórdias de Deus. Ora, numa época em que a cultura ocidental já tinha a habilidade de diferenciar mito da realidade, Tiago jamais poderia citar um personagem fictício como exemplo de paciência para pessoas reais com sofrimentos reais. Afinal, como poderíamos encontrar forças de Deus para enfrentar o sofrimento, baseado no exemplo de uma pessoa que nunca existiu?

A história de Jó nos aponta, ainda, para outra realidade muito mais ampla. “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Efésios 6:12). Paulo deixa claro que existe uma realidade invisível, encoberta aos nossos olhos, mas, na qual estamos inevitavelmente inseridos.

O livro de Jó deixa claro que Satanás ainda possuía certo grau de acesso a outros mundos, e ainda podia dialogar com Deus, mesmo tendo sido excluído do Céu (Jó 1:6; 2:1). Isso ocorria porque o engano de Satanás ainda não havia sido totalmente desmascarado (Ezequiel 28:15-17), o que só aconteceria na cruz pela morte do Messias. Ainda existiam questões a serem resolvidas relativas ao caráter de Deus e de seus seguidores. Essa narrativa afirma que Satanás veio da Terra para participar da reunião dos filhos de Deus. Contudo, não é ele o representante do nosso planeta, pois o governo de Deus é dado somente a seus filhos; mas aqui se tornou o covil do movimento rebelde que Satanás havia levantado contra o Reino dos Céus.

O texto mostra que os “filhos de Deus” possuíam conferências periódicas (Jó 1:8), e que Satanás possuía algum tipo de acesso a esses encontros. Porém, Satanás não é contado como um dos filhos de Deus, mas como seu acusador, alegando que Deus possuía um relacionamento promiscuo com seus filhos. “Porventura, Jó teme a Deus debalde? Acaso não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicam na terra. Estende, porém, a mão e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face” (Jó 1:9-11; veja Jó 2:4, 5). O argumento de Satanás sempre tem sido que somos objeto de Deus e que nossa fidelidade é comprada com seus bênçãos. Não existe amor, mas manipulação no relacionamento de Deus conosco. Diante dessa acusação, Deus permitiu que Satanás tentasse a Jó com o pior tipo de sofrimento, para que o Universo visse que o argumento do diabo é uma falácia.

O livro de Jó nos deixa claro que vivemos num sério conflito entre Deus e Satanás. O título de Satanás, do heb. “hassatan”, é literalmente “o adversário” em termos jurídicos. Como já vimos, Satanás acusa a Deus de ser um governante injusto que aprisiona os seus filhos sob o argumento de que eles não podem viver a não ser que se submetam à tirania da sua lei. Afirma que é impossível obedecer essa lei simplesmente por amor e submissão voluntária. Ou seja, segundo Satanás, os filhos de Deus são enganados, ludibriados por Deus ao receberem suas bênçãos, impossibilitados de ver uma realidade maior do que a que eles veem, para não se tornarem “semelhantes ao Altíssimo” (Isaías 14:12-14; veja Gênesis 3:1-6). Essa mentira é o que nos levou a viver nessa triste realidade de pecado.

Caro amigo, você pode confiar, por meio de uma fé viva e racional, que Deus não é homem para mentir (Números 23:19). Deus jamais contaria uma história mentirosa, ou usaria um mito para nos incentivar a ter paciência e confiança em meio ao sofrimento. Jó existiu, ele era humano, e seu exemplo é padrão para nós, “um homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1:1). Se Jó, que era pecador como nós, venceu por meio da sua fé, você também pode vencer ao confiar que Deus, o seu redentor “vive, e por fim, se levantará sobre a Terra” (Jó 19:25).

Equipe Biblia.com.br

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Denis Versiani é Mestre em Teologia.

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