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E O Verbo Se Fez Carne

Jesus Cristo

Um estudo sobre João 1:1-18.

Denis Versiani

Um dos temas de estudo mais maravilhosos da Bíblia é a encarnação de Jesus, o nosso Salvador. Como alguém poderia atravessar o abismo intransponível entre o trono do Universo e uma morte vergonhosa na cruz? Já é consenso em grande parte da teologia cristã que Jesus é Deus, mas que diferença isso pode fazer na nossa vida?

Era o fim do primeiro século, provavelmente entre os anos 95 e 100 d.C. Todos os apóstolos haviam morrido, exceto João. Ele já havia escrito o livro do Apocalipse em Patmos. Já havia sido martirizado pelos romanos, mas sem perder a vida. Agora, com um pouco de paz, no fim da sua vida, morando em Éfeso, João se preocupava com heresias teológicas que estavam invadindo a igreja, como o gnosticismo, que distorcia a compreensão da natureza de Cristo. Por isso, João iniciou o seu livro com palavras poeticamente calculadas, para transmitir o real conceito de quem foi Jesus. Por isso, antes de prosseguir, pegue a sua Bíblia e abra em João 1:1-18, para acompanhar essa leitura.

João 1:1-5

“No princípio era o Verbo”. Geralmente entendemos o “princípio” como início de alguma coisa na linha do tempo. João se remete a Gênesis 1:1 para definir o princípio como o início de tudo que foi criado no Universo. Isso significa que o tempo e o espaço em que vivemos também foram criados por Deus. Da mesma forma, nosso planeta e tudo o que há nele, incluindo a raça humana, não existia antes de ser criado. Aliás, na Criação da Terra, os últimos seres que passaram a existir foram Adão e Eva.

Mas a palavra “princípio” vai além da noção temporal. Se Jesus não existisse, nada existiria. É por meio do Seu poder que as coisas foram criadas. É pelo Seu poder que elas continuam existindo. O Seu poder mantém a existência dos elementos do Universo a nível subatômico. Por isso, Jesus é o “Princípio” da Criação na manutenção da sua existência.

Agora, por que lemos “Verbo” (na versão ARA), se no original grego, o termo logos significa “Palavra” (como na versão NVI)? João Ferreira de Almeida foi muito feliz na sua tradução. Por definição, “verbo” é uma palavra que denota ação, algo dinâmico, não estático. Por exemplo: “Eu faço” é uma frase que denota ação. Mas, diferente das nossas palavras, que simplesmente expressam ideias de forma sonora, o logos tem um princípio de ação em si. Quando o logos é dito, as coisas acontecem pelo próprio poder do logos. Trocando em miúdos, se eu disser para uma lâmpada: “Acenda, ela não vai acender só porque eu falei, a não ser que eu ponha o dedo no interruptor. Mas quando Deus disse: “Haja luz”, a luz passa a existir pelo poder do logos, da Palavra, do “Verbo”, e todo o restante se fez. 

Amigo, isso é muito interessante! Jesus é o “Verbo” a Palavra viva de Deus! Isso significa que a Palavra pode assumir uma natureza pessoal. Por isso que João diz: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele”. Por meio de Jesus, Deus criou o Universo. Sem Jesus, a Palavra de Deus nada do que foi feito poderia existir.

Desde antes do princípio, Jesus já existia. “E o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”. Jesus é tão Deus como Deus, tão eterno quanto Deus. Tão poderoso quanto Deus, e intimamente ligado a Deus. Por isso, nós podemos entender que o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Gênesis 1:2) são um único Deus, e não três. Porque, desde o princípio, as três entidades divinas estão intimamente ligadas por um laço que não podemos compreender, e atuaram juntas da Criação.

“A vida estava nEle”. Esse é outro ponto que define a Palavra de Deus como um Ser vivo e dinâmico. Se Jesus é o Princípio da Criação, nós só vivemos porque cada milissegundo de vida é um presente dEle para nós. Em Gênesis 2:7, Deus soprou o fôlego de vida em Adão no Éden. Esse é o mesmo dom de vida que Jesus dá a homens e animais (Eclesiastes 3:19). Quando alguém morre, esse dom volta para Jesus que o deu. Por isso que Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6).

“E a vida é a luz dos homens”. Em seu imenso amor, Deus Se revelou a nós por meio da Palavra. Ele revelou a grandeza e a profundidade do Seu amor por meio de Jesus, iluminando a nossa mente e a nossa vida pecadora por meio da Sua revelação. Deus já se revelava na Natureza, nos pensamentos, por meio da oração e das Escrituras. Mas, agora, Jesus foi a máxima revelação de Deus.

João 1:6-13

João Batista (não o apóstolo) era primo de Jesus, nascido por volta de seis meses antes do Mestre. Ele foi escolhido para profetizar, por inspiração do Espírito Santo (2 Pedro 2:21), preparando o caminho do Senhor. Por isso, não houve maior profeta no mundo. João não testemunhava de si mesmo, mas de Jesus, preparando o caminho dos que o ouviam para receber a Luz do Mundo, e compreender a Jesus, quando Ele aparecesse.

“A verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem” era Jesus. Porém, embora todos tenham sido iluminados pela luz de Cristo, a grande maioria rejeitou a luz para viver nas trevas, onde seus pecados não os incomodam. Preferiram rejeitar a Deus e Sua salvação. Por isso, “o mundo não O conheceu”.

“Veio para o que era Seu”. O Universo, bem como a Terra e todos os seres criados pertencem a Deus por direito, já que Ele é o nosso criador e mantenedor. Mas, por sermos seres pensantes, Deus respeita a nossa livre escolha de aceitá-Lo ou rejeitá-Lo (Gênesis 1:26, 27). Se não quisermos pertencer ao Proprietário, temos essa liberdade. Mas vai chegar o dia em que seremos finalmente alienados da vida, destruídos para sempre, condenados à não-existência (Apocalipse 20:14).

“Os Seus não O receberam”. Aqui, João está falando a princípio do povo Judeu, a semente de sangue da parte de Abraão. Jesus foi perseguido pelos próprios líderes do povo. Os sacerdotes, escribas e fariseus eram responsáveis por guiar a mente de cada judeu para receber o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Mas eles distorceram o significado do reino de Deus. O Messias não seria um libertador nacional ou um capitão militar. Ele viria para estabelecer o reino dos Céus no coração do homem, preparando-o para subir ao Céu quando Ele voltar. Por isso, Jesus foi rejeitado pelos líderes judaicos, e por grande parte do povo. Mas, em extensão, os que não O receberam também são os que, ao longo da história, rejeitaram a Jesus, ou distorceram Seus ensinos para enganar a muitos, inclusive na nossa geração.

“Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”. Querido leitor, a ideia de que todos são filhos de Deus está errada! Podemos todos ser criados por Deus, mas, como pecadores, não somos todos filhos de Deus. João deixa claro nos versos 12 e 13 que os que recebem a Jesus e creem nEle como seu Salvador e seu Rei, esses são feitos filhos de Deus, seja judeu ou gentio. Isso vai além dos laços de sangue, é uma questão de fé.

Existem dois tipos de fé. O primeiro é simplesmente admitir que Jesus existe e é o Criador e Salvador do mundo; é até mesmo concordar com os princípios da lei e da religião. Se cremos assim, não estamos um milímetro acima das convicções que o diabo também tem. O segundo é adicionar a tudo isso o amor, submissão e confiança, num relacionamento pessoal com Deus. Verdadeira fé é buscar conhece-Lo e segui-Lo, fazendo dEle o seu maior tesouro. É crer que, mesmo que o milagre não aconteça, o seu Redentor vive, e por fim se levantará sobre a Terra (Jó 19:25). É se apossar das Suas promessas, mesmo que você não as alcance agora. Fé é estar firme, mesmo que isso leve você à vergonha e à morte. É esse tipo de fé que leva à vida eterna (João 3:16).

João 1:14

“E o Verbo se fez carne”. João descreve de forma simples, mas impressionante o mistério da encarnação. A Palavra de Deus, divina por natureza se tornou tão homem quanto nós ao encarnar em uma única célula fecundada dentro do útero de uma jovem garota em uma vila do interior da Galileia. Jesus não deixou de ser Deus ao se tornar homem. Mas Ele, voluntariamente, ocultou sua natureza divina ilimitada dentro do invólucro humano limitado. Jesus assumiu a essência da natureza humana (Filipenses 2:8). Amigo leitor, não existe ninguém no Universo que possua duas naturezas ao mesmo tempo.

Jesus “habitou entre nós”. O termo grego traduzido como “habitou” tem o sentido de montar uma tenda, construir um tabernáculo. Da mesma forma que Deus tinha a vontade de habitar no meio de Israel por meio do santuário israelita, Jesus viveu e morou no meio de nós, sendo um de nós. Jesus se identificou com nossas lutas e experimentou nossas alegrias. Jesus viveu nossa vida em todos os aspectos, desde a infância até a idade adulta; e por fim, como homem e Deus, assumiu sobre Si a nossa culpa, morrendo a nossa morte pendurado em uma cruz (João 1:29; 3:13-15; Filipenses 2:9, 10).

Embora Jesus seja hoje tão humano quanto nós, existe um aspecto fundamental que diferencia a Sua natureza humana da nossa. Jesus não era pecador. Nós somos pecadores por natureza. Nossa natureza nos impulsiona a praticar o mal, e esse impulso é usado por Satanás para nos derrubar. Jesus não era sujeito à lei do pecado e, por isso, o pecado era repulsivo a Ele. (Romanos 7:25-8:4). Jesus foi enviado por Deus “em semelhança de carne pecaminosa” (Romanos 8:3). Ser “semelhante” ao pecador não é ser igual ao pecador. Jesus era tão humano quanto Adão antes de pecar. Embora carregasse as marcas de um mundo castigado pelo pecado – ou seja, Ele sentia cansaço, fome, sede, sono, tristeza e solidão, como qualquer um de nós – Jesus não tinha a tendência para fazer o mal que nós temos. Como seres alienados, nós queremos fazer o bem, mas nosso corpo nos impulsiona a fazer o mal (Romanos 7:7-24). Jesus, não sendo pecador, tinha méritos para nos livrar da lei do pecado por meio da justificação (Romanos 7:25-8:4).

Por isso, Jesus era “cheio de graça e de verdade”. A graça é o poder de Deus para salvar o pecador e livrá-lo dos enganos de Satanás. É por meio desse poder que somos justificados e podemos participar dos atributos da natureza divina. É assim que a Sua glória se manifesta em nós.

“E vimos a Sua glória, glória como do Unigênito do Pai”. Você se lembra que, em Êxodo 33:18, Moisés pediu para ver a glória de Deus no Sinai? Deus respondeu: “Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do Senhor” (Êxodo 33:19). Amigo, a glória de Deus é muito mais do que o seu brilho, autoridade e poder. A glória de Deus é a manifestação da sua bondade. Deus teve misericórdia e Se compadeceu de toda a humanidade (Êxodo 33:19). E, pela primeira vez, a humanidade pecadora pôde ver a Deus face a face (Compare João 1:14 com Êxodo 33:19-23). Jesus mostrou a Sua glória em toda plenitude ajudando o triste, curando o doente, pregando a verdade e vivendo para amar até o seu inimigo. A maior manifestação da glória de Deus foi quando O vimos pendurado, nu e ensanguentado na cruz.

João 1:15-18

Moisés viu Jesus pelas costas. João viu Jesus face a face, e ouviu da Sua boca as palavras da vida. Que privilégio, tanto para Moisés quanto para João! Nós também podemos ver a Jesus face a face, quando aceitarmos a graça diariamente. Podemos vê-Lo pela fé agora, para um dia vê-Lo face a face quando Ele voltar.

Ao ver Jesus, seja pessoalmente, ou pelas palavras do evangelho, podemos contemplar Sua glória, a bondade de Deus. Quando amamos aos nossos irmãos, mesmo que eles se revelem nossos inimigos, e oramos por eles, nós estamos vendo a Deus. Deus é amor, e quando o Seu amor é praticado em nossa vida, nos tornamos verdadeiramente Seus filhos (1 João 47-10).

Vida em Jesus

Você sabe o que é maravilhoso? É que, a despeito de esse Deus poderoso se preocupar com todo o Universo, Ele conhece você, amigo leitor, intimamente a ponto de saber os seus pensamentos e quantos fios de cabelo há na sua cabeça. Dizer que todo mundo é especial poderia ser a mesma coisa que dize que ninguém é. Mas isso não é verdade para Deus. Deus é onisciente e onipotente. Ele conhece o seu coração e ouve você como se ninguém mais existisse no Universo. Você pode confiar. Mesmo que você se sinta terrivelmente sozinho, saiba, pela fé, que ele está com você no vale da sombra da morte (Salmo 139:1-5; 24:4, 5; Lucas 12:7).

Amigo, não há maior amor que esse, de alguém dar a sua própria vida em favor dos seus amigos (João 15:13). O abismo intransponível entre o trono da glória e o nosso mundo mortal agora tem um caminho, e o caminho é Jesus (João 14:6). Portanto, mesmo que você não encontre a resposta que você queria às suas orações, mesmo que a doença e a dor não lhe abandone, mesmo que a morte alcance você, não perca a sua fé. O próprio Jesus, o Verbo de Deus, diz: “Não se perturbe o seu coração. Creia em Deus, creia também em Mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhe teria dito. Vou preparar-lhe um lugar. E se Eu for e lhe preparar lugar, voltarei e o levarei para Mim, para que você esteja onde Eu estiver” (João 14:1-3). Amigo, acredite, você não está sozinho nem esquecido. Se Jesus cumpriu a Sua palavra ao morrer por nós, acredite, Ele vem para o grande dia da festa! E, nós estaremos unidos a Ele pelos laços da humanidade para todo sempre!

Que Deus abençoe você!

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Denis Versiani é Mestre em Teologia.

E agora? É o fim? E se for?
A MORTE NÃO É O FIM