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A Mulher de Jó – Quando o Luto Abala a Fé

Como Jó, ela nunca entendeu a razão de toda aquela dor, mas Deus teve misericórdia dela.

Denis Versiani

Vivemos num planeta onde a tragédia é uma realidade comum na vida. Basta um segundo para perder a direção do carro e se chocar com a morte, para perder o chão sob os pés em virtude do diagnóstico de câncer, ou receber uma mensagem de texto informando a morte de um ente querido. Foi assim com Jó que, em aproximadamente trinta segundos, ficou sabendo que sua vida mudou completamente (Jó 1:13-19). Ele perdeu tudo: propriedades, gado, funcionários, amigos, e o mais importante, seus dez filhos. Pense no luto que o patriarca e sua esposa sentiram. Como se não bastasse, Jó foi acometido da doença mais mortal que alguém poderia ter (Jó 2:7); uma doença tão violenta que destruiu todos os seus órgãos e rasgou sua carne até os ossos, ao ponto de que, quando seus amigos o avistaram, ficaram em luto silencioso por sete dias e sete noites, “pois viam que a dor era muito grande” (Jó 2:13). Ninguém era capaz de entender como tantas calamidades poderiam ocorrer a uma só pessoa.

Embora Jó nunca tenha conhecido a razão do seu sofrimento, o livro deixa bem claro nos dois capítulos anteriores a sua razão: “Porventura Jó teme a Deus por nada? Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem?… Estende, porém, a mão [contra ele]” (Jó 1:9-11; 2:4, 5). Essa foi a reivindicação de Satanás diante da declaração de Deus sobre a integridade de Jó. Satanás acusava Jó de ter um relacionamento promíscuo com Deus, servindo-o por motivos egoístas. Para Satanás, a prosperidade de Jó era recompensa de propina pelos seus serviços. Se Deus retirasse todas as suas bênçãos, Jó blasfemaria e abandonaria a Deus. Satanás se referia a uma adoração comprada, alegando que ninguém no Universo era livre adorando um Deus que suborna, ou ameaça suas criaturas por meio de recompensa ou punição. Com essa acusação, Satanás queria mostrar ao Universo que a verdadeira religião não existe.

O que é a essência da verdadeira religião? Não é o serviço por uma recompensa ou pelo temor de alguma retaliação; não é desejar o Céu porque lá existe uma cidade de ouro. É servir a Deus e adorá-lo porque Deus é santo e merece nossa adoração e louvor; porque ele é bom e misericordioso. A verdadeira religião é desejar o Céu porque Deus é a sua maior riqueza.

A verdade deve ser dita: não foi Deus quem destruiu a família e o patrimônio de Jó, nem mandou a doença; foi Satanás. Deus permitiu pois conhecia a resistência de Jó e estaria com Ele.

E lá estava Jó, sofrendo com a doença mais agressiva e mortal que um ser humano poderia ter. À medida que o tempo passava, o patriarca se perguntava quando aquilo tudo ia acabar, quando Deus ia intervir contra aquela praga. Afinal, eles já enfrentavam um luto terrível pela morte dos seus filhos e pela perda de tudo o que tinham. Não pense, leitor, que ele ficou doente por uma semana ou um mês. Até que os amigos, que moravam a centenas de quilômetros um do outro ficassem sabendo e se planejassem para visitá-lo juntos, passou um período de seis meses a um ano pelo menos.

Foi nesse contexto, que a mulher de Jó apareceu dizendo: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 2:9). Provavelmente, eles estavam esperando uma solução da parte de Deus para aquele problema, ou o fim de tudo com a morte de Jó. Por isso que ela perguntou por que Jó insistia em permanecer íntegro diante de Deus.

A palavra “integridade”, o ponto de tensão do livro de Jó, pode ser traduzida como “perfeição, plenitude, inocência, justiça, inculpabilidade e maturidade”. Jó tinha um relacionamento maduro com Deus; ele o adorava pelas razões certas. Mas, sua mulher perdeu isso de vista ao questionar por que sua fidelidade não era recompensada da maneira certa. De que adiantava ser integro e terminar a vida de uma forma tão miserável? No original hebraico, a palavra “amaldiçoar” significa “renunciar, abandonar, maldizer, acusar” a Deus. Ela provavelmente disse isso para que ele morresse logo, e pusesse um fim à sua miséria.

“Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com seus lábios” (Jó 2:10). Por causa da sua integridade, Jó teve a maturidade de ver além do que a doença e o luto normalmente permitiriam. Jó considerava a Deus como o soberano sobre toda bênção e maldição. A visão dos patriarcas era baseada em causalidade, um hebraísmo, uma figura de linguagem que atribui a Deus a causa de ações que ele simplesmente permite, como endurecer o coração do faraó, e instigar Davi ao pecado (Êxodo 4:21; 2 Samuel 24:1), e permitir que Satanás atacasse a Jó pelas razões apresentadas nos dois primeiros capítulos. Embora Deus não possa tentar ninguém (Tiago 1:13), pela sua permissão, o mal age, a fim de que Satanás seja desmascarado diante do mundo e do Universo.

A palavra “doida” não representa doença mental. Ela se refere a um tipo de estupidez intelectual, falta de entendimento, visão distorcida dos fatos. A palavra usada foi o título dado a Nabal, esposo de Abigail, um homem estúpido e tolo que perdeu a sua vida por causa da sua estupidez (1 Samuel 25:2-38). A esposa de Jó estava sendo totalmente insensata. Suas palavras refletiam exatamente a acusação de Satanás contra Deus. Em sua insanidade, a mulher de Jó perdeu de vista a essência do relacionamento com o Altíssimo, e acusou a Deus de tirania. Por isso, mesmo tendo questionamentos semelhantes, Jó tentou trazê-la para a realidade: “Temos recebido o bem de Deus, e não receberíamos também o mal? Deus recebeu a nossa fidelidade nos bons momentos; será que ele não merece a nossa fidelidade também nos maus momentos? Se ele nos encheu de bênçãos, ele não teria a autoridade de retirá-las?”

Nós sempre caímos no grande erro de pensar que religião é fazer as coisas certas para recebermos recompensas, ou por medo das consequências de nossos erros. Dizimamos e ofertamos para que Deus abençoe nossas finanças. Obedecemos a Deus, porque, se não o fizermos, acreditamos que seremos destruídos no juízo final. Essa religião é exatamente a que Satanás quer que pratiquemos; uma religião de fachada. Mas ela é muito arriscada, pois, quando as coisas começam a dar errado, nos decepcionamos com Deus e dizemos: “O Senhor não é justo, pois eu tenho feito tudo direito, e os resultados não estão sendo como eu esperava”. É exatamente nesse ponto que nos revoltamos e amaldiçoamos a Deus.

Porém, devemos ouvir o conselho de Jesus: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mateus 7:1). Caro leitor, nós podemos julgar os fatos, mas só Deus tem autoridade e sabedoria para julgar as motivações. O que a mulher de Jó disse foi uma insensatez, e um pecado grave. Mas, se o próprio Jó, em sua integridade, questionou duramente a Deus, por que ela não o faria?

Deus, em sua infinita sabedoria e sua amorosa paciência, conhecia o luto doloroso e profundo que a mulher de Jó estava vivendo. Pode ser por isso que ela não estava pensando direito. Ver o seu esposo como um defunto vivo quebrantava o seu coração. Ela perdeu estabilidade familiar, financeira e mental. Essa dor a levou a esse estágio de insanidade e revolta. Como Jó, ela nunca entendeu a razão de toda aquela dor, mas Deus teve misericórdia dela.

Os alegados amigos de Jó, Elifaz, Bildade, Zofar e o jovem e imaturo Eliú, cometeram um grave pecado ao tentarem ser advogados de Deus, realçando a justiça do Criador, enquanto acusavam Jó de iniquidade. Como eles poderiam julgar o coração e as motivações do patriarca sem poder vê-las? Para Deus, esse pecado foi muito mais grave que o da mulher de Jó, que sabia que seu esposo era um “homem integro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1:1). Tanto foi que, ainda doente, Jó precisou interceder pelo perdão deles em holocausto, pois Deus aceitaria dele a intercessão. Mas nada é dito sobre Jó precisar interceder pelo perdão da sua esposa.

Por isso, podemos ver que o livro de Jó mostra a justiça e a misericórdia de Deus em lidar com cada caso de maneira particular e personalizada, mostrando ao Universo que o mal não presta.

Portanto, podemos tirar algumas lições da história de Jó e sua esposa: 1) nesse mundo, infelizmente, vamos sofrer, pois Deus precisa permitir que o Satanás opere o mal, e seu engano seja desmascarado; 2) embora Deus não permita tentação que não possamos suportar, às vezes, o sofrimento é muito grande e nos leva a momentos de insanidade; 3) Deus é paciente com a nossa revolta e desabafos, muitas vezes, insensatos; 4) nunca julgue os motivos da revolta de alguém, pois você não tem condições de se colocar no seu lugar para entender a sua dor; e 5) podemos entender que nenhuma dor é eterna, pois um dia, Deus fará justiça pelos seus, e responderá a todas as nossas perguntas, principalmente àquelas cuja resposta nunca vamos encontrar aqui na Terra.

Que Deus abençoe você!

Equipe biblia.com.br

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Denis Versiani é Mestre em Teologia

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